Terça, 24 de Outubro de 2017

O Repórter

A 'Midia Ninja' não faz jornalismo

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Alex de Souza - 20 de agosto de 2013 às 10:36 (Atualizada em 20 de agosto de 2013 às 14:57)

RIO DE JANEIRO (O REPÓRTER) - Desde que se iniciaram as manifestações públicas espalhadas pelo Brasil, em meados de julho deste ano, uma turma ganhou as manchetes dos grandes jornais e da TV. Falo da "Mídia Ninja", que se autointitula  uma alternativa à imprensa tradicional.

O que este grupo faz não é jornalismo em sua essência. Tem, obviamente, elementos do jornalismo, mas o jornalismo pleno e eficaz, como se pretende, está ausente.

A premiada jornalista Eliane Brum, vencedora de mais de 40 prêmios jornalísticos, entre eles Esso e Vladimir Herzog, disse em entrevista à "Revista Piauí" que o bom jornalismo se faz com "reportagem que não reduz o mundo, que busca captar palavras, silêncios, hesitações, texturas e gestos. Detalhes únicos que enriquecem o texto, que fazem com que o leitor imagine a cena, desloque-se no tempo e no espaço e se emocione".

A Mídia Ninja não se encaixa na definição de Eliane Brum, visto que eles não fitam o olhar (ou não querem) em outras direções e se fixam em um determinado ponto, tal como a viseira de um cavalo. Isto impede que os seus seguidores tenham uma real noção do que esteja ocorrendo nas manifestações que se espalham pelas ruas e que são o produto de suas coberturas.

Outro fato grave, que põe os ninjas em xeque, é o formato de sua organização, totalmente obscuro, como numa seita religiosa. Eles surgem a partir de um grupo de fomento à cultura, conhecido como "Fora do Eixo", que também se disviruta de sua essência. (Saiba por que, aqui)

Pouco se sabia sobre eles, até a entrevista que os seus líderes Bruno Torturra e Pablo Capilé deram ao programa "Roda Viva", da TV Cultura. Após a sabatina, a mídia profissional se debruçou no tal fenômeno e foi a campo desvendar a real faceta de um grupo que prega a imparcialidade total e um "novo modelo de jornalismo".

O jornalista Fernado Gabeira, em artigo publicado no "Estado de São Paulo", foi direto e cobrou a imparcialidade que os ninjas gritam aos quatro cantos.

"Quando alguém da Mídia Ninja é preso, a grande imprensa relata em detalhes e busca explicações da polícia. Quando carros das emissoras de TV são queimados por manifestantes, é de esperar que a Mídia Ninja também combata esse tipo de violência e todas as outras formas de agressão".

Este tal modelo inventando ou reinvetado pelos ninjas não se sustenta.

A colunista de "O Globo", Cora Ronai, se disse desapontada ao perceber que "por trás do que imaginava ser um movimento espontâneo, estavam, pelo menos em parte, grana e estímulo do governo. [...] não confio em quem se diz independente e autossustentável enquanto, por trás, recebe uma quantia não especificada de recursos que, por serem nossos, deveriam ser bem explicados".

Até a revista "Veja", que não se bica com a Carta Capital, reproduziu a matéria da concorrente, assinada por Lino Bocchini e Piero Locatelli, que trouxe à tona alguns negócios pouco ortodoxos de Capilé e do grupo "Fora do Eixo". (Confira aqui ).

É balela dizer que se faz jornalismo, indo para rua com celulares em punho, colher horas de material e jogá-los na rede, sem edição, sem tratamento, sem explicação aos seus leitores, a título de jornalismo independente. É para mim, fanfarronice, preguiça.

Numa análise fria, o jornalista é aquele que coleta, redige, edita e publica. Mas, sabemos que vai além dessas burocráticas definições.

Álvaro Caldas, em "Deu no Jornal", Editora PUC Rio (2002), sugeriu características básicas ao que se define jornalista. "Bom texto, simples e direto. Síntese entre a linguagem falada e a literária e um mínimo de elegância ao contar uma história".

Repito, portanto, que a Mídia Ninja não faz jornalismo, apesar de possuir alguns elementos do jornalismo. Uma das provas desta afirmação, está na entrevista caótica, de mais de 1h30min, que fizeram com o prefeito Eduardo Paes, político experiente, que os colocou no bolso. (Veja aqui)

Uma enchurrada de críticas tomou conta das redes sociais após a entrevista com o prefeito do Rio e o grupo se viu obrigado a publicar um mea-culpa "a pressa foi inimiga da perfeição, tínhamos duas opções apenas: topar (a entrevista) ou não".

A entrevista a um grupo, que estava na crista da onda dos protestos no Rio de Janeiro, acabou se tornando perfeita para a estratégia da prefeitura municipal de aumentar a presença de Eduardo Paes nas redes sociais e o aproximar dos formadores de opinião na internet. O prefeito não perdeu tempo. Criou uma conta no Google Hangouts, ferramenta que promove transmissões em vídeo para falar com internautas e prometeu mais interação pelo site Rio+, onde a população pode sugerir e votar em ideias que melhorem a cidade.

O despreparo pode comprometer a mensagem final e o profissional da Comunicação, que se afasta do compromisso com a verdade e a informação, assumido em sua formação, passa a buscar subterfúgios para reinventar a roda, o tal novo modelo de jornalismo (diferente de modelo de negócio, que as empresas buscam).

No início deste século, a discussão pairava sobre a indefinição dos jornais impressos com a revolução tecnológica, que ainda causa nas empresas de mídia uma grande indefinição e medo. A saída, no entanto, não está no tal novo modelo, mas na valorização ampla do jornalista, não apenas em termos salariais, mas sobretudo em sua formação.

Desta maneira, finalizo o texto com a definição mais que perfeita da minha colega Eliane Brum, sobre o jornalismo. (Que para mim, repito, não é feito pela Midia Ninja).

"Existe bom e mau jornalismo. O bom jornalismo é aquele que se faz apurando todos os detalhes, atravessando a rua e mudando de ângulo várias vezes, sempre aberto para o espanto. Aquele que se ouve um pássaro cantar vai descobrir que pássaro era aquele, se diz que fazia sol no dia em que aconteceu um crime é porque checou com três sites de meteorologia diferentes para ter certeza de não errar, além de ouvir várias pessoas apenas sobre este detalhe específico. É na precisão dos detalhes, na quantidade de nuances, na reprodução do ritmo e da fala e no respeito pelas palavras do outro que a reportagem se faz substantiva e comprova sua qualidade e relevância. Na reportagem, não há milagre, e o talento para escrever não salva ninguém da preguiça. O cara pode ser um prêmio Nobel da literatura que, se apurou mal, vai escrever um texto ruim. E, sim, o bom jornalismo se aplica a tudo o que é da vida".

Tags:
Midia Ninja, jornalismo, imprensa, mídia, jornal, revista, TV, manchetes, jornalistas, jornal, ninjas
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Comentários (2)
  • Alex de Souza (Rio de Janeiro)

    Boa tarde Luiz. Você comete dois equívocos. Um, ao dizer que eu não gosto do que o Mídia Ninja faz. Não gosto, nem desgosto. O que eu não enxergo nisso é jornalismo, além do que muita coisa ainda não está esclarecida. E segundo, você diz que o povo não tem acesso à mídia. Se fosse verdade, como você diz, como pode esse mesmo povo ser manipulado pela mídia? Eu respeito a opinião dos meus leitores, mas como vivemos numa democracia não tenho que concordar com ela. Obrigado pela audiência!

    20/08/2013 10:44 :: 2 usuários concordam :: 3 usuários discordam Carregando...
  • Luiz Eduardo (São Gonçalo)

    boa tarde, Alex. eu tenho que respeitar que vc não está gostando do que a Mídia Ninja esteja fazendo, mas como aqui é um lugar onde eu posso "falar com vc", eu gostaria de falar que tem muito tempo, mas muito tempo mesmo que a gente, o povo sem acesso ao mídia, está sendo manipulado por uma imprensa que vc diz que em seu texto ser um jornalismo de verdade. citou vários exemplos de pessoas importantes com suas teorias mirabolantes. muito bom isso tudo, mas olha pelo lado do povo. esse povo, como eu, que tem q ser manipulado. é revoltante ver jornalistas de verdade fazendo coisas que a VERDADEIRA MÍDIA manda fazer, e por dinheiro, fazem muito bem. não te conheço, mas acho q vc tem q ouvir mais quem te ouve. vc por ser um jornalista, não faz a besteira de se entregar ao sistema e criticar o povo ao invés de ir junto com ele. se o povo acordar e não quiser mais ouvir o q os verdadeiros jornalistas dizem, eles não vão ter pra quem falar e assim não serão mais ninguém. desculpa se falei alguma coisa q não gostou, mas o q eu quis dizer aqui é que muitas das vezes temos o poder de mudar e não fazemos pq queremos apontar os erros dos outros. se vc realmente acha q estão muito errados, temos o youtube que vc pode mostrar a verdade do seu jeito e com esse canal aqui, vc pode melhorar e muito as coisas para o povo. para nós, vc também está nessa. obrigado pela oportunidade.

    20/08/2013 09:01 :: 5 usuários concordam :: 1 usuário discorda Carregando...
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