Quinta, 19 de Setembro de 2019

O Repórter

Frei Neylor Tonin

Neylor J. Tonin é frade franciscano e descendente de italianos. Mestre em Espiritualidade, é formado em Psicologia, Sociologia e Jornalismo. Escritor e conferencista, professor de Oratória Sacra (Homilética), quer ser da vida "um bom pastor, um ardente profeta, um encantado poeta.
Frei Neylor Tonin

De Coração Aberto - Mandela e Papa Francisco

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Frei Neylor Tonin - 14 de dezembro de 2013 às 11:29
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Mandela era ateu

Li, com certo espanto, que alguns apologistas da religião postaram o comentário: “Gandhi era ateu!” “Mandela era ateu!” Comentário sem graça e sem propósito! Num momento de profunda admiração, que reuniu mais de 90 Presidentes mundiais em torno da figura eminente e maior de Nélson Mandela, anotar que ele teve ou não religião beirou ao ridículo e ao sem graça. Ele foi um homem de Paz. Nesse sentido, ele foi um homem pascal. Cristo o teria saudado: “a Paz esteja convosco”. E mais: “A quem perdoardes os pecados (do ódio, do rancor) eles serão perdoados”. Mandela ficou preso durante 27 anos e voltou para sua casa e para seu país sem mágoa e sem ódio. Dentro de nossas Igrejas, ao contrário, há muitas pessoas que estão presas por décadas a ódios trágicos e amargos. Saem às ruas, todos os dias, carregando consigo um rosto de ódio. Um dia, serão colhidos pela morte com um coração irreconciliado e rancoroso. Sobra a pergunta: Quem foi mais cristão, Mandela que venceu o ódio das humilhações e das injustiças, ou alguns seguidores de Cristo que não escutaram nem viveram seu mandamento: “Perdoai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos perseguem”? Deixem cair as pedras das mãos. Só as atirem quem não tiver pecado. A nossa religião é a do perdão e da paz. Caso contrário, podemos ter religião, mas não seremos religiosos e muito menos cristãos. Na verdade, vejo como muitos ainda vivem no Antigo Testamento, mas estão longe da Páscoa da Paz e do Perdão. Talvez Mandela tenha sido ateu, mas tinha alma cristã. Por isso, reuniu em torno de seu cadáver 90 Presidentes mundiais. Quem estará em torno do nosso? Ele mereceu discursos exaltantes por sua vida. E nós? Que mereceremos nós? O ódio não constrói jardins. Só cemitérios.

Permitam-me mais uma curta palavra sobre Nélson Mandela. Escrevi, um dia: “O ódio jamais construiu jardins. Só cemitérios”. Esta foi uma verdade pétrea de sua vida. Depois de 27 anos de prisão, não demonstrou nenhum resquício de ódio. Teria tido muitas razões para extravasar o ódio das incompreensões e injustiças sofridas por que passou. Saiu, no entanto, da prisão para o campo da paz, esquecendo o campo minado do Apartheid. Nesse sentido, permitam-me dizer que foi um verdadeiro franciscano. A África do Sul ainda não é, com certeza, um jardim um Reino dos Céus, mas está longe de ser um cemitério, graças, em grande parte, a ele, Pai da Pátria, que merece os aplausos do mundo inteiro. Quando se compara seu voo de águia altaneira com as rasteirices de muitos outros governantes mundiais e nacionais, dá uma grande vontade de chorar lágrimas de fogo e decepção. Você, NÉLSON MANDELA, não foi apenas um herói para seu povo. Você foi e é uma estrela de coruscante brilho para a humanidade. Por isso, caracterizou-o, com inteira justiça seu companheiro de lutas, o Bispo Desmond Tutu: “Um Colosso de integridade e caráter pessoal inatacáveis” e como “a figura pública mais admirada e mais venerada do mundo”. E disse mais: “Ele se consumia por essa paixão em servir, porque acreditava que um líder existe para o benefício dos que são guiados, não para o autoengrandecimento ou a autopromoção”. Se você, NÉLSON MANDELA, nos desse a honra de uma visitinha ao nosso Convento, eu lhe serviria, em nome de todos os homens e mulheres, amantes da Paz, uma bandeja cheia e transbordante das gostosas “bolachas pintadas” do Natal.

Papa Francisco, a Personalidade do Ano

Entre muitos outros, pessoas dignas ou lamentáveis deste ano, o PAPA FRANCISCO foi apontado, pela revista norte-americana TIME, a PERSONALIDADE DO ANO de 2014. Com inteira justiça, podia ter sido NÉLSON MANDELA, que ainda não tinha morrido durante o processo de votação. Mas a escolha do PAPA FRANCISCO também foi justa, pois ele é merecedor de todos os aplausos. Poucos meses de papado, mas com uma atuação marcante e profundamente humana. Não é difícil admirar o nosso Papa. Ninguém pode esquecer muitos de seus gestos “pouco papáveis”, mas significativos e surpreendentes. No balcão da Basílica de São Pedro, inclinado, começou, no dia de sua apresentação “urbi et orbi”, rezando e pedindo orações ao povo, sem se esquecer de seu antecessor Bento XVI, que tinha renunciado. Depois os gestos surpreendentes foram se multiplicando, revelando que um novo tempo se instalava em benefício da Igreja Católica e para os novos rumos da humanidade. No primeiro dia, foi de carro normal rezar na Basílica de Santa Maria Maior, com uma parada para, in persona, pagar o hotel em que ficara hospedado nos dias anteriores ao Conclave. Papa pagando hospedagem em hotel? Só mesmo Mario Jorge Bergoglio. Além dos gestos, sucederam-se as falas. Como João XXIII, está abrindo as portas da Igreja. Pediu aos padres que fossem para as ruas e que não ostentassem luxo em seus carros e comportamentos, porque o povo não gosta de pastores dinheiristas. Nos primeiros dias, anunciou que a Igreja é dos pobres e devia ser pobre. Sem solenidades e protocolos, abandonou o vezo doutrinário em seus sermões, embora seja um bom teólogo. Pediu que a Igreja abandone velhas e surradas questões polêmicas, como aborto, casamento entre gays e relações homossexuais, e anuncie o cerne do caminho evangélico que confessa Cristo como Salvador e Deus como Pai de misericórdia. Aconselhou que os padres, mais do que sérios defensores da doutrina, sejam alegres e acolhedores. Em referência as outras religiões, mostrou que não as condena, mas pediu que todas se unam no respeito em favor da eliminação das tristezas que afligem pessoas e nações. Usa e acentua valores como esperança, alegria, ternura e acolhimento, afirmando que a Igreja, por ser mãe, não deve se comunicar com escritos e documentos, mas deve acolher, abraçar, afagar, amar e alimentar. Abdica de secretários, e ele mesmo carrega sua maleta ao entrar em aviões. Abraça, ao invés de dar a mão para  beijos. Sacode a consciência das pessoas e instituições para o escândalo da fome e para a morte de pessoas por causa do frio. Insiste nos valores éticos e humanos, parecendo mais um Cura de Aldeia do que o sucessor de Pedro. Beija crianças, entusiasma jovens e pede respeito pelos idosos. E recomenda que, diante de visitas inesperadas, é sempre possível, botar mais água no feijão. Este é o nosso Papa. Por isso e por muito mais, foi, com justiça, eleito a PERSONALIDADE DO ANO.

“Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor de sua pele, da sua origem ou da sua religião. Para odiar, é preciso aprender. E se se pode aprender a odiar, pode-se também aprender a amar”. “A derrubada da opressão foi sancionada pela humanidade, é a maior aspiração de cada homem livre”. “Bravo não é quem não sente medo, mas quem o vence”. “Marcados nessas pedras (de sua prisão), você vai encontrar a dor da nossa luta, a tristeza das nossas perdas e os alicerces de nossa vitória”. Nélson Mandela, 1918-2013 - Líder sul-africano, Pai da Pátria e Prêmio Nobel da Paz


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Comentários (2)
  • Inês Ferreira (Rio de Janeiro)

    Belíssimas palavras sobre Mandela e Papa Francisco, frei Neylor. Ambos serviram e servem a humanidade, ambos são grandes homens. E você, frei Neylor, é um grande pastor que defende as causas mais nobres. Hoje faz 49 anos que ordenou-se padre. Mais uma vez parabéns e que Deus te abençoe.

    15/12/2013 08:58 Carregando...
  • Fernando Nunes (Uberlândia )

    A maioria das religiões (99%) acreditam ser a única verdade, que seus religiosos são a "imagem de Deus" e erram por isso. Independe de creça ser um ser humano capaz de ser e fazer pelo próximo. Ao meu ver Todos os religiosos buscam apenas o próprio ego "eu sou como Deus". Vamos excluir aquelas que dispensam comentários (escravagista capitalista) e levar em conta apenas aquelas que se dizem possuir livros e tetetê sagrado, devem reconhecer que é sagrado apenas pra aquele grupo. Religião é apenas cultura.

    14/12/2013 05:04 Carregando...
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