Quinta, 19 de Setembro de 2019

O Repórter

Frei Neylor Tonin

Neylor J. Tonin é frade franciscano e descendente de italianos. Mestre em Espiritualidade, é formado em Psicologia, Sociologia e Jornalismo. Escritor e conferencista, professor de Oratória Sacra (Homilética), quer ser da vida "um bom pastor, um ardente profeta, um encantado poeta.
Frei Neylor Tonin

De Coração Aberto - Festejando em estilo 'light'

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Frei Neylor Tonin - 09 de novembro de 2013 às 10:45
reprodução
Tenzing Gyatso é o Dalai Lama, líder religioso e também líder oficial do governo tibetano. Sorrindo, nunca perdeu a sua seriedade

Ao adicionar mais uma colaboração ao nosso Portal, e comemorando minha 80ª. participação, vamos ser um pouco mais singelo e “light”. Tenho certa aversão anarquista à necessidade de ser sempre sério e de viver sempre engravatado moral, doutrinária e espiritualmente. Os Mestres do Deserto (séculos III-VI) costumavam dizer: “Um monge que não ri não é sério”. Como estou preparando um CD (a ser lançado em dezembro), tomo a liberdade de trazer-lhes, em primeira mão, umas provinhas dele. Transcrevo abaixo umas poucas mensagens. Não serão de grande fôlego, mas de intenso cuidado e de caprichada elaboração. Sinto que grande número de Leitores não aprecia longas dissertações. Procurei, por isso, ser breve e conciso. Depois me digam se apreciaram. Obrigado. Aliás, a partir desta semana, minhas colaborações serão postadas no Portal sempre aos sábados.

Mensagens

1.

“Quero levantar-me todos os dias para abençoar a vida e para louvar o santo nome de Deus. Quero ver em cada homem um irmão, ajudando-o a crescer em seus anseios de grandeza. Quero respeitar a dor de quem sofre mais do que eu e enxugar as lágrimas de quem chora por falta de pão e de amor. Quero apertar a mão e abraçar quem tem caráter e dignidade e levantar a voz contra quem é insolente. Quero ser homem de fé, jardineiro da esperança, profeta da cidadania, construtor da paz, servo das causas comuns e arauto desatado da alegria”.

2.

“Que não falte pão na mesa das famílias nem escola para as crianças. Que não falte esperança aos doentes nem dinheiro no bolso dos trabalhadores. Que não falte inspiração para os educadores nem alegria para os dançarinos. Que não falte honestidade para os que governam nem dignidade para os cidadãos. Que não falte fé para os que pregam nem serenidade para os mártires. Que não falte disposição para os que vivem nem confiança para os que morrem. E que todos exaltem a graça e o milagre da vida, sem se esquecer de agradecer a Deus”.

3.

“A verdadeira paz não é, essencialmente, sem conflitos, mas comporta a ausência de guerra, não aceitando a eliminação do outro. Aceita caminhos diferentes e até conflitantes para garantir e reforçar seu ideal. Somente pessoas de grande fortaleza podem ser instrumentos desta paz, não renegando, por um lado, as próprias convicções, nem condenando, por outro, as opções alheias. Caso contrário, a paz seria fruto duma frouxa, fingida e mentirosa diplomacia, que teria seu mais inegável templo nos cemitérios”.

4.

“O que Deus deseja para a pessoa humana é a superabundância de vida, porque Deus, por natureza, não é pequeno e cria sempre como transbordamento de sua graça que é vida plena. O Antigo Testamento, senão mais do que o Novo, apresenta a vida como o supremo valor a ser buscado e defendido, amado e honrado, como extensão e imagem do próprio Deus. Feri-lo seria desgraçar-se como Caim, que matou Abel, perdendo-se sem descanso pelos caminhos do mais trágico desencontro e fazendo-se maldito para sempre”.

5.

“Conheci um homem que passou 47 anos entrevado, num quartinho abafado, e morreu sem maldizer a vida. Conheci uma mulher que criou 12 filhos, perdeu o marido cedo e nunca reclamou de nada. Conheci uma pessoa que não tinha quase beleza física, mas só lindas palavras para os outros. Conheci outra quer era absolutamente rigorosa consigo mesma, mas sempre foi afável para com todos. Conheci um mendigo que cantava pelas ruas da cidade. E conheci alguém que tinha tudo, menos coração”.


Tomo a liberdade de apresentar-lhes uma poeta lusitana pouco conhecida no Brasil: FLORBELA ESPANCA (foto acima). Grande poeta, quase incomparável, de rica e refinada inspiração, nascida em 1894 e falecida em dezembro de 1930. Teve uma vida bastante atribulada, apesar de seus poucos 36 anos. Seu pai era sapateiro e sua mãe, estéril. Florbela nasceu de um caso extraconjugal. Mesmo assim, seu pai somente a reconheceu como filha quando ela completou 18 anos. Casou-se três vezes e tentou o suicídio mais de uma. Na última, a causa de sua morte foi dada como ingestão de uma sobredose de barbitúricos. O grande poeta português FERNANDO PESSOA referiu-se a ela como “alma sonhadora, irmã gêmea da minha”. Eis um de seus sonetos.

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida!
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser,
A mesma história tantas vezes lida!

Tudo no mundo é frágil, tudo passa...
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!...


Florbela Espanca, 1894-1930 Poeta portuguesa


Frei Neylor, irmão menor e pecador
neylor.tonin@terra.com.br
www.freineylor.net


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