Segunda, 20 de Janeiro de 2020

O Repórter

Frei Neylor Tonin

Neylor J. Tonin é frade franciscano e descendente de italianos. Mestre em Espiritualidade, é formado em Psicologia, Sociologia e Jornalismo. Escritor e conferencista, professor de Oratória Sacra (Homilética), quer ser da vida "um bom pastor, um ardente profeta, um encantado poeta.
Frei Neylor Tonin

De Coração Aberto - Nossa Senhora Aparecida

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Frei Neylor Tonin - 13 de outubro de 2013 às 11:49
reprodução

Cada país tem a sua Nossa Senhora. No Brasil, a pesca da imagem, em 1717, nas águas do Rio Paraíba, foi o começo da veneração daquela que é, hoje, a Padroeira do Brasil. E tudo começou com o pedido de peixe pelo Conde de Assumar, Governador de Minas, que fora visitar São Paulo que fazia parte de sua capitania. (Apenas um dado curioso: na época, a São Paulo de hoje, que tem mais de 15 milhões de habitantes, não tinha mais de dois mil. Em 1762, quando lá chegou o Santo Frei Galvão, vindo do Convento de Santo Antônio, Rio de Janeiro, onde fora ordenado, a cidade tinha exatos 3.853 pessoas registradas.) A pesca milagrosa aconteceu quando o Conde de Assumar pernoitava em Guaratinguetá e manifestou o desejo de comer peixe. Gula? Providência divina? Sinal do céu? Que importa! Três canoeiros foram chamados para satisfazer os gostos do Conde. Mas nada conseguiam pescar até que um insólito fato aconteceu. Depois de lançarem inutilmente as redes, apanharam a imagem da Santa. Depois da Santa, pescaram peixes em profusão. (Bom seria se a Virgem de Aparecida inspirasse e ensinasse o povo brasileiro e nossas autoridades políticas a colocar peixe e comida nas mesas da nossa gente.)

A devoção a Maria não foi instantânea, mas quase. Ela ficou com o caboclo e pescador Felipe Pedroso que levou a imagem para sua casa onde permaneceu por 15 anos, rodeada pela devoção do povo que lhe atribuía graças alcançadas. Em 1734, o vigário de Guaratinguetá fez construir uma capela no alto do Morro dos Coqueiros. A capela foi visitada por Dom Pedro I em abril de 1822 e pela Princesa Isabel que, em 1888, viajou para Aparecida pagar uma promessa, oferecendo à Virgem, na ocasião, uma coroa de ouro, cravejada de diamantes e rubis, e um manto azul ricamente adornado. Em 1834, deu-se início à construção do que é, hoje, a Basílica Velha. A nova somente foi começada em 1965. Esta tem 173m de comprimento e 166m de largura, em formato de cruz. A cúpula mede 70m de altura. Foi visitada e oficialmente inaugurada por João Paulo II, sendo, hoje, o maior templo católico do mundo, dedicado a Maria. Lá também esteve, em julho de 2013, o atual Papa Francisco.

Nossa Senhora da Conceição Aparecida foi proclamada a principal Padroeira do Brasil pelo Papa Pio XI, em 1930. Nos anos do Império, o padroeiro era São Pedro de Alcântara, que é o padroeiro de Petrópolis, cidade de Pedro. A imagem mede 40cm de altura e é de terracota, de argila cozida. Atualmente, de cor preta, ela teria sido multicolorida, segundo os entendidos. Por ano, é visitada por cerca de 10 milhões de peregrinos.

Dia da criança


Quando, aos 20 anos, era um “cavalo fogoso”, assisti a uma palestra de um reverendo e sábio padre ancião que tinha, então, a minha idade de hoje. Chocou-me quando afirmou que nós, jovens, sempre sentiríamos falta de um filho, muito mais do que de uma mulher. Naquela incandescente idade, não me passava pela cabeça a beleza de um filho, mas, sim, a tentação de uma linda e desejável mulher. Até, julguei, que ele estava dizendo uma rotunda tolice. Hoje, acho que estava coberto de razão. Confesso isso no Dia da Criança. Neste e em todos os dias, abraço e beijo as crianças, mesmo não tendo a alegria de um filho para curtir. Não há nada de mais bonito nem de mais querido do que um filho.

O filho é nossa continuação e será sempre mais do que nós mesmos. Ele é a nossa sobre-vida. Ele nos amplia. É o transbordamento do nosso ser. É nosso coração batendo fora de nós mesmos.

Abraçá-lo, por isto, é como abraçar-nos e perdê-lo equivaleria a sofrer uma amputação afetiva e existencial irrecuperável. A morte de um filho nos fere com uma dor sem consolo, é um fim desesperançado e definitivo. Por um filho, daríamos sem hesitação toda nossa fortuna, porque nada se compara à riqueza que ele é. Não há dinheiro que o compre ou pague, não o trocaríamos por nada neste mundo.

Já acompanhei, penalizado, o sofrimento de pais por seus filhos, quando estes pareciam não corresponder aos sonhos que por eles tinham. Mas mesmo quando não eram o que deles esperavam, ainda assim continuavam os pais a acreditar neles e sempre os desculpavam por suas loucuras e desatinos. Perdoavam-nos como se estivessem perdoando a si mesmos.

Amar assim um filho é amá-lo com um amor de vida e morte. É jogar todas as fichas para salvá-lo, mesmo chorando lágrimas que queimam e sentindo na boca a esponja de vinagre que consolava os condenados à morte. Vale a pena, por isto, dar a vida por um filho, embora não nos seja permitido atropelar e desrespeitar sua individualidade, mesmo ao preço de querer salvá-lo. Mesmo sendo o maior sonho de felicidade que possamos alimentar, ele será sempre diferente de nós, não podendo ser sufocado por nosso natural instinto de proteção. Terá que aprender a caminhar com seus próprios pés, correndo os riscos que o farão crescer e ser ele mesmo. Ele não é a nossa sombra. Ele tem luz própria e esta luz deve brilhar, inclusive para iluminar nossos sonhos e caminhos.

Não nos esqueçamos de que amar verdadeiramente é ampliar os espaços da liberdade para a pessoa amada. Nossos filhos precisam respirar. Não lhes tiremos, por isso, o ar da liberdade. É preciso amá-los sem tolhê-los; exaltá-los, em prosa e verso, sem sufocá-los; encaminhá-los e até empurrá-los para a vida, sem medo e sempre na alegria, com confiança, fazendo-o acreditar na riqueza dos caminhos e na amplidão dos horizontes.

Valeria, neste contexto, lembrar, religiosamente, que o próprio Deus não hesitou em enviar seu Filho ao mundo para os riscos de um plano de salvação, que teve um fim tanto trágico como vitorioso. O coração de nossos filhos também foi feito para ter, um dia, sentimentos de pai ou mãe. E vai depender, em grande parte, de nós que este coração ensine a seus filhos, e aos nossos netos, o valor da liberdade e a graça de viver.

Frei Neylor, irmão menor e pecador
neylor.tonin@terra.com.br
www.freineylor.net


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