Quinta, 19 de Setembro de 2019

O Repórter

Frei Neylor Tonin

Neylor J. Tonin é frade franciscano e descendente de italianos. Mestre em Espiritualidade, é formado em Psicologia, Sociologia e Jornalismo. Escritor e conferencista, professor de Oratória Sacra (Homilética), quer ser da vida "um bom pastor, um ardente profeta, um encantado poeta.
Frei Neylor Tonin

De Coração Aberto - Todos os Santos

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Frei Neylor Tonin - 03 de novembro de 2013 às 14:57
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A festa do dia de Todos os Santos é celebrada em honra de todos os santos e mártires da Igreja

Antigamente, era no dia 1º. de novembro que a Igreja Católica celebrava a festa de Todos os Santos. Atualmente, é neste domingo, o primeiro domingo de novembro. Os santos são venerados, pelos católicos, como heróis e pessoas que se aproximaram, em vida, grandemente da pessoa ou mistério de Deus. Mais do que o normal das pessoas, chegaram mais perto da divindade. Evidentemente, não são Deus, eles são “pessoas de Deus”, e são vistos como exemplos a serem seguidos pelos que querem viver como eles, numa maior intimidade com Deus. Ao serem canonizados, a Igreja confessa que viverem as virtudes da religião “em grau heroico”. Em São Francisco, a virtude do amor aos pobres e leprosos. Em Santa Teresa de Calcutá, no amor pelos moribundos e excluídos da sociedade. Em Santa Teresinha do Menino Jesus, na entrega às tarefas mais simples da vida de um mosteiro. Nos Santos Mártires, no testemunho final de sua fé.

Aqui, fazem-se necessários um esclarecimento e um alerta para que se evitem uma dupla ignorância. Relativamente aos santos, é bom esclarecer que os católicos não adoram os santos. “Adorar”, aliás, tem uma dupla acepção. Comumente, as pessoas dizem, sem grandes reflexões, que adoram sorvete, pipoca, que adoram viajar ou ver novela, ou confessam “eu te adoro”. Esta é a primeira acepção (popular) que tem a elástica palavra adorar. Adorar, numa segunda acepção, somente é aplicável a Deus. Em todas as religiões, Deus é adorado. A palavra vem do latim, com a preposição “ad” (para) e o substantivo “os, oris” (boca). Adorar seria, portanto, colocar a boca em Deus. Em outras palavras, seria reconhecer que o ideal da adoração implica numa busca religiosa de se aproximar tanto de Deus quanto um beijo aproxima duas pessoas que se amam.

Os santos teriam conseguido isso pelo estilo de vida que levaram. Irmãos pentecostais e evangélicos condenam os católicos, acusados de adorar os santos. Os santos não podem ser adorados, mas apenas venerados, admirados e aplaudidos. Qualquer outro comportamento seria inadmissível. Quando os católicos veneram os santos, não param neles, mas, com eles, desejam chegar mais perto de Deus. Aqui, alertamos os católicos sobre os limites de seu culto aos santos e aos evangélicos esclarecemos que não façam acusações inconsistentes. No primeiro sentido da palavra adorar, há católicos que costumam dizer “adoro este ou aquele santo”. Usam a acepção popular do termo. Na segunda acepção, a clássica, original ou teológica, só se pode adorar a Deus. A não mantermos esta compreensão, ninguém mais, nem católicos nem evangélicos poderá dizer: “Adoro uma boa picanha”, “adoro um shoppinho ou as flores do jardim de minha casa”. Pessoalmente, não vejo problema em dizer que adoro São José (por meu segundo nome); adoro São João Batista (por ser o santo padroeiro de Luzerna, onde nasci); adoro São Francisco e Santa Clara (por serem os fundadores da Ordem à qual pertenço); adoro Santo Antônio (por ter vivido 20 anos em seu Convento, no Largo da Carioca, Rio) e adoro, sobretudo, Nossa Senhora (minha querida mãe e mãe de Jesus, a quem quero seguir na vida e na morte). Que os santos e mártires nos protejam e nos lembrem que, acima de tudo, somos de Deus, a quem somente adoramos, e seguimos Jesus, nosso único Salvador. O resto é briguinha de comadres, é coceira de quem não tem o que fazer.

Finados

O grande e mais importante dia nacional dos Estados Unidos é o “Memorial Day”, dia em que os americanos lembram seus mortos e os heróis que deram a vida pelo país. No Brasil, o Dia de Finados é igualmente muito lembrado, porque somos um povo sentimental e vivemos pungidos pela saudade. Infelizmente, entre nós, principalmente em grandes cidades, os enterros já não gozam da mesma circunspecção e solenidade, como antigamente. Mas isso não tira a seriedade e o peso da morte. Nossas igrejas se enchem para as Missas de 7º. Dia. Devemos reconhecer que, muitas vezes, não passam de acontecimentos sociais de baixa pureza religiosa. Mas a morte não pode restringir-se apenas a discursos, coroas de flores e a comentários superficiais. A morte dos outros pode ser, para nós, trágica e lamentável. A nossa, no entanto, é-nos simplesmente inaceitável. Basta que constatemos qualquer sintoma mais sério de doença, para nos colocarmos e colocar o mundo em estado angustiante de alerta.

É difícil, senão impossível, acostumar-se com a ideia da própria morte. Isto, aliás, não deveria causar estranheza a ninguém, pois diz a sabedoria popular: “Ninguém fica para semente”. Há os que consideram uma graça morrer de repente, sem sentir que a hora chegou. Há outros que chegam a transformar a morte num espetáculo, maquiando os próprios medos com rompantes de vaidade e dramaticidade. Há ainda os que se entregam aos afazeres do dia a dia, não se dando tempo para pensar que o fantasma da morte os está rondando. Mas há, também, os que morrem em paz, reconciliados com a vida, ou porque estão cientes de terem vivido bem, ou porque creem na realidade feliz da pós- morte. Para uns e para outros, no entanto, morrer sempre será um penoso acontecimento, uma hora decisiva de difícil aceitação.

Humanamente, a morte é a grande vilã, a grande inimiga da vida, pois coloca em cheque e frustra não um, mas todos os sonhos de quem parte e deixa uma inconsolável saudade em quem fica. A verdade é que viver é também estar sempre morrendo. Cada minuto que passa é uma pequena morte que acontece. Não morremos apenas nos minutos, mas também nos acontecimentos. Morremos para tudo que fazemos e a estas mortes chamamos de “passado” ou “nossa história”. É disso que vamos criando saudades. Quanto mais envelhecemos, mais vamos alimentando saudades das pequenas mortes que foi nossa vida. Até que, um dia, acabamos de vez de ter saudades de toda a vida e se instala, em nós, definitivamente, como desafio último, a saudade de Deus. A isso chamamos, na fé, de morte, e, assim, morre quem acredita no Senhor da vida. Religiosamente, morrer é voltar para Deus o que fazemos desde o instante em que nascemos. Nascemos, cheios de cuidados pela vida e morremos, totalmente pobres, cheios dos cuidados de Deus.

“Estou sendo chamado. Dizei-me adeus, irmãos! Eu me despeço e vou embora. Deixo-vos a chave da minha porta. Renuncio a qualquer direito à minha casa. Peço-vos apenas amáveis palavas de despedida. Fomos vizinhos por muito tempo e recebi mais do que eu poderia dar. Agora, já é dia e está se apagando a lâmpada que iluminava o meu canto escuro. Ouço que me chamam e estou pronto para a viagem”. Rabindanath Tagore, 1864-1941, Prêmio Novel de Literatura em 1913

Frei Neylor, irmão menor e pecador
neylor.tonin@terra.com.br
www.freineylor.net


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