Sexta, 21 de Janeiro de 2022

O Repórter

Frei Neylor Tonin

Neylor J. Tonin é frade franciscano e descendente de italianos. Mestre em Espiritualidade, é formado em Psicologia, Sociologia e Jornalismo. Escritor e conferencista, professor de Oratória Sacra (Homilética), quer ser da vida "um bom pastor, um ardente profeta, um encantado poeta.
Frei Neylor Tonin

De Coração Aberto - Teologia da Libertação

  • Compartilhar
  • Compartilhar por e-mail
  • Reportar um erro
Frei Neylor Tonin - 14 de julho de 2013 às 10:58
reprodução

Teologia da Libertação

Tive a graça e o privilégio de ser colega de turma de Frei Leonardo Boff. Estudamos juntos, fomos ordenados padres no mesmo dia e sempre nos quisemos bem. Eu o admiro muito e sei que ele não é “feroz como um lobo” como alguns o tentam fazer passar. Pode não ser um santo de altar, mas certamente não é um capeta dos infernos. Quando mudou de trincheira, mas não de fé, Dom Eugênio se regozijou como se sentisse um vencedor. Eu fiquei triste porque a Igreja do Brasil perdia uma de suas mais insignes figuras e, sem dúvida, o mais destacado teólogo de sua história. Na ocasião, escrevi uma carta ao JB afirmando que não deveríamos pensar e julgar os que saíam, mas analisar como nós estávamos ficando (na Igreja). Abaixo transcrevo uma nota de LB e umas considerações de Gianni Valente sobre a Teologia da Libertação. Penso comigo: Antes tarde do que nunca. A verdade pode demorar, mas sempre acaba vencendo as mentiras. Fico feliz de ver o Papa Francisco dizendo repetidamente: Temos de voltar às periferias. Lá estão os pobres. “A nossa Igreja deve ser pobre e dos pobres”. Não foi assim que pensava o Cardeal Salles que, num erro político de evangelização, abandonou as periferias e abriu seu flanco para um sem número de seguimentos pentecostais. (Frei Neylor J. Tonin)

"O que escreverei aqui não tem nenhum sentimento de revanche. Repito o que disse ao então Card. Joseph Ratzinger, depois Papa Bento XVI, no final do julgamento a que fui submetido no edifício da ex-Inquisição, à direita de quem vem da Via della Concilizione no dia 7 de setembro de 1985: “A última palavra sobre o significado da Teologia da Libertação não a tem o Sr., Cardeal, nem eu, mas a Deus e a verdade da história que, no seu tempo, virá à luz”. E parece que está vindo à lume agora, quando o atual Presidente da Congregação da Doutrina da Fé, o Arcebispo (não é ainda Cardeal) Gerhard Ludwig Müller, escreveu um livro conjuntamente com um dos fundadores da Teologia da Libertação, o peruano Gustavo Gutiérrez com o significativo título “Da parte dos pobres: Teologia da Libertação, Teologia da igreja” (Pádua 2013). Ai se confessa claramente que o combate contra a TL estava ligada a interesse ideológicos, próximos do capitalismo e do status quo imperante na América. Curiosamente, o combate contra a TL se fundava na acusação, revelada como falsa, de que se inspirava no marxismo e representava o cavalo de Tróia pelo qual entraria o marxismo na América Latina. O corifeu desta falsificação foi o Card. Alfonso Lopez Trujillo de Medellin, hoje falecido, e em sua medida, também o Card. Eugênio Salles do Rio de Janeiro, também falecido. Publico este texto especialmente para leitura daqueles que neste blog insistem em acusar a TL e a mim pessoalmente de marxistas, comunistas e outras  desqualificações. A luz tem mais direito que as trevas. E aquilo que foi verdade, naqueles dias turbulentos em que éramos perseguidos pelos Órgãos de Segurança dos Militares e publicamente difamados por nossos próprios irmãos de fé, continua verdade hoje e oxalá sempre: os pobres gritam por serem oprimidos; pertence à missão da fé cristã ouvir este grito e fazer o que puder para que eles, conscientizados e organizados, possam sair daquela infame situação que não agrada a ninguém, nem a Deus". (Leonardo Boff)

Posição e remendo

“O movimento eclesial teológico da América Latina, conhecido como Teologia da Libertação, que depois do Vaticano II encontrou eco em todo o mundo, deve ser considerado, na minha opinião, entre as correntes mais significativas da teologia católica do século XX”. Quem consagra a Teologia da Libertação com esta elogiosa e peremptória avaliação histórica não é nenhum representante sul-americano das estações eclesiais do passado. O “certificado” de validade chega diretamente do Arcebispo Gerhard Ludwig Müller, atual Prefeito do mesmo dicastério vaticano – a Congregação para a Doutrina da Fé – que durante os anos 1980, seguindo o impulso do Papa polonês e sob a direção do então Cardeal Ratzinger, interveio com duas instruções para indicar os desvios pastorais e doutrinais que também incluíam os caminhos que as teologias latino-americanas haviam tomado. A reportagem é de Gianni Valente e publicada no sítio Vatican Insider, 21-06-2013. A tradução é do Cepat.

Introdução

A avaliação sobre a Teologia da Libertação não é uma declaração que escapou acidentalmente ao atual custódio da ortodoxia católica. O juízo, meditado, aparece nas densas páginas do volume do qual foi tirada a frase: uma antologia de ensaios escrita a quatro mãos, impressa na Alemanha, em 2004, e que agora está sendo publicada na Itália com o título “Da parte dos pobres, Teologia da Libertação, Teologia da Igreja” (Ediciones Messaggero, Padua, Emi).

Atualmente, o livro irrompe como um ato para encerrar as guerras teológicas do passado e os resíduos bélicos que de tempos em tempos brilham para espairecer alarmas que representam ora interesses, ora pretextos. O livro é escrito pelo atual responsável pelo ex-Santo Ofício e pelo teólogo peruano Gustavo Gutiérrez, pai da Teologia da Libertação e inventor da própria fórmula utilizada para definir essa corrente teológica, cujas obras foram submetidas a exames rigorosos durante muito tempo pela Congregação para a Doutrina da Fé, em sua longa estação ratzingeriana, embora nunca tenha sido condenado.

Parceria

O livro representa o resultado de um longo caminho comum. Müller nunca ocultou sua proximidade com Gustavo Gutiérrez, que conheceu em 1998 em Lima durante um seminário de estudos. Em 2008, durante a cerimônia para o doutorado honoris causa concedido ao teólogo Müller pela Pontifícia Universidade Católica do Peru, o então bispo de Regensburg definiu como absolutamente ortodoxa a teologia de seu mestre e amigo peruano. Nos meses anteriores à nomeação de Müller como presidente do dicastério doutrinal, foi exatamente sua relação com Gutiérrez que foi evocada por alguns como prova da não idoneidade do Bispo teólogo alemão para o posto que ocupou (durante 24 anos) o então Cardeal Ratzinger.

Nos ensaios da antologia, os dois autores-amigos se complementam reciprocamente. Segundo Müller, os méritos da Teologia da Libertação vão além do âmbito do catolicismo latino-americano. O Prefeito indica que a Teologia da Libertação expressou no contexto real da América Latina das últimas décadas a orientação para Jesus Cristo redentor e libertador que marca qualquer teologia autenticamente cristã, justamente a partir da insistente predileção evangélica pelos pobres. “Neste continente”, reconhece Müller, “a pobreza oprime as crianças, os idosos e os doentes”, e induz muitos a “considerar a morte como uma escapatória”. Desde as suas primeiras manifestações, a Teologia da Libertação‘obrigava’ as teologias de outras partes a não criar abstrações sobre as condições reais da vida dos povos ou dos indivíduos. E reconhecia nos pobres a “própria carne de Cristo”, como agora repete o Papa Francisco.

Acusações

Justamente com a chegada do primeiro Papa latino-americano surge com maior força a oportunidade para considerar esses anos e essas experiências sem os condicionamentos dos furores e das polêmicas daquela época. Mesmo afastando-se dos ritualismos dos “mea culpa” postiços ou das aparentes “reabilitações”, hoje é muito mais fácil reconhecer que certas veementes mobilizações de alguns setores eclesiais contra a Teologia da Libertação eram motivadas por certas preferências de orientação política mais que pelo desejo de guardar e afirmar a fé dos apóstolos.

Os que pagaram a fatura foram os teólogos peruanos e os pastores que estavam completamente submergidos na fé evangélica do próprio povo, que acabaram “triturados” ou na sombra mais absoluta. Durante um longo período, a hostilidade demonstrada para com a Teologia da Libertação foi um importante fator para favorecer brilhantes carreiras eclesiásticas.

Decisão política

Em um dos textos, Müller (que numa entrevista de 27 de dezembro de 2012 havia expressado a hipótese do cenário de um Papa latino-americano depois de Ratzinger) descreve sem meias palavras os fatores político-religiosos e geopolíticos que condicionaram certas “cruzadas” contra a Teologia da Libertação: “Com o sentimento triunfalista de um capitalismo que, provavelmente, se considerava definitivamente vitorioso”, refere o Prefeito do Dicastério Doutrinal vaticano, “misturou-se também a satisfação de ter negado desta maneira qualquer fundamento ou justificação da Teologia da Libertação. Acreditava-se que o jogo com ela era muito simples, lançando-a no mesmo conjunto da violência revolucionária e do terrorismo dos grupos marxistas.

Müller também cita o documento secreto, preparado para o presidente Reagan pelo Comitê de Santa Fé, em 1980 (ou seja, quatro anos antes da primeira Instrução sobre a Teologia da Libertação), no qual se solicitava ao governo dos Estados Unidos da América que agisse com agressividade contra a “Teologia da Libertação”, culpada por ter transformado a Igreja Católica em “arma política contra a propriedade privada e o sistema da produção capitalista”.

“É desconcertante neste documento”, destaca Müller, “a desfaçatez com que seus autores, responsáveis por ditaduras militares brutais e por poderosas oligarquias, fazem de seus interesses pela propriedade privada e pelo sistema produtivo capitalista o parâmetro do que deve valer como critério cristão”.

Luzes de uma nova era

Após terem passado décadas de batalhas e contraposições, justamente a amizade entre os dois teólogos (o Prefeito da Doutrina da Fé e aquele que durante um tempo foi perseguido pelo mesmo Dicastério Doutrinal) alimenta finalmente uma ótica capaz de distinguir as obsoletas armações ideológicas do passado da genuína fonte evangélica que impulsionava muitas das rotas do catolicismo latino-americano depois do Concílio.

Segundo Müller, Gutiérrez, com seus 85 anos (e que pretende viajar à Itália e passar por Roma em setembro), expressou uma reflexão teológica que não se limitava às conferências nem aos cenáculos universitários, mas que se nutria da seiva das liturgias celebradas pelo sacerdote com os pobres, nas periferias de Lima. Ou seja, essa experiência básica graças à qual – como disse sempre simples e biblicamente o próprio Gutiérrez– “ser cristão significa seguir a Jesus”. É o próprio Senhor, acrescenta Müller ao comentar a frase de seu amigo peruano, quem “nos dá a indicação de nos comprometermos diretamente com os pobres. Fazer prevalecer a verdade nos leva a estar do lado dos pobres”.

Frei Neylor, irmão menor e pecador
neylor.tonin@terra.com.br
www.freineylor.net

De Coração Aberto - O Brasil está cansado

  • Compartilhar
  • Compartilhar por e-mail
  • Reportar um erro
Frei Neylor Tonin - 07 de julho de 2013 às 12:12
Marcello Dias / Agência O Repórter

O BRASIL ESTÁ CANSADO

Cansado de vagar sem perspectivas reais e de sonhar com uma Terra Prometida que não chega nunca e que, em longo prazo, se lhe afigura sempre mais um sonho (quase) impossível. Seus problemas se agravam e, na visão de entendidos, parecem, em curto prazo, insolúveis. O país se arrasta com um povo sofrido pelas pesadas areias do deserto da desesperança, pés queimados pelo sol, língua ressequida e com um grito preso na garganta. Em seus delírios, o povo brasileiro ainda procura oásis alternativos como o carnaval, o futebol e, quem pode, viaja para Miami.

O BRASIL ESTÁ CANSADO. Cansado de ser uma grande terra, linda por natureza, mas maltratada por vândalos e arruaceiros profissionais que quebram e queimam e por políticos que mangam da boa fé dos cidadãos, prometendo mundos e fundos e bolsas falaciosas que nunca afastarão os beneficiados da dependência e da passividade. Enquanto uns vivem à tripa forra, a grande maioria se levanta cedo, trabalha de sol a sol apenas para poder comer o pão que o diabo amassou.

O BRASIL ESTÁ CANSADO. Cansado dos que mentem e rapinam, ali-babás sem caráter e sem patriotismo, gente de caráter duvidoso, exploradores dos que trabalham honestamente para alimentar suas famílias e dar escola a seus filhos. Tentam enganar a Deus e a fé de seus semelhantes, deslavadamente, resguardados por uma Justiça que não os alcança e sempre navegando pelas águas turvas da impunidade. Quando algum deles é preso, apenas serve como boi de piranha para que os demais continuem se locupletando com a consciência mais tranquila do mundo. Fazem pouco das palavras de Ulisses Guimarães: “Não roubar, não deixar roubar, pôr na cadeia quem rouba, eis o primeiro mandamento da moral pública”.

O BRASIL ESTÁ CANSADO. Cansado de falcatruas, de enganações, de conchavos de dirigentes populistas e espertos, sem projetos e sem carisma, está cansado de uma UNE inoperante e omissa, de Centrais Sindicais envenenadas e subservientes, de tecnocratas preguiçosos que falam de crescimento econômico, sem atentar para a qualidade de vida para a população, de políticos arrogantes e enfatiotados com salários acintosos e privilégios inaceitáveis, que favorecem todo tipo de benesses, para si e para seus parentes e afins, e se refestelam em restaurantes de Primeiro Mundo, sem se lembrarem da fome do povo. A vida, para a imensa maioria, é penosa e se encontra banalizada e sem saída.

O BRASIL ESTÁ CANSADO. Cansado, envergonhado, com baixa estima e revoltado. O povo se contenta apenas com uma casinha para viver e descansar, enquanto eles desfilam garbosamente por palácios e residências luxuosas. Para o povo resta apenas a rua para desfilar suas esperanças e fazer subir ao céu seu clamor, tentando acordar os ouvidos daqueles que mentem e fazem pouco do sofrimento e do suor de seus concidadãos. Tomara que o povo não se cale! Que grite e que acorde, com o trovão de sua voz, a consciência de seus mandatários. A miséria tem limites. A fome tem urgências. Os barracos têm vida. Oxalá as manifestações públicas não sejam estéreis! O que é purgatório, hoje, para muitos, poderá ser, amanhã, inferno para quase todos. O Brasil não merece isso. A chama da esperança continua queimando para o bem ou para o mal. Sem Ordem e Progresso, sem o brio do patriotismo, as estrelas da bandeira não terão o brilho do nosso Hino Nacional, desta terra amada e idolatrada, salve, salve. O Brasil está cansado, é verdade, mas ainda respira, grita e, nas legítimas manifestações das ruas, revela que não está morto.

PLAC! PLAC! para a Ordem dos Jesuítas que administram, ao redor do mundo, uma rede de 200 universidades e 700 colégios.
PLAC! PLAC! para o Papa João Paulo II em vias de ser declarado santo em dezembro de 2013.
PLAC! PLAC! para o Papa João XXIII que também pode ser canonizado em dezembro, na mesma ocasião.

UUUH! UUUH! para os preços nas lanchonetes das novas arenas de futebol: cachorro quente a R$ 8,00 e água mineral a R$ 6,00.
UUUH! UUUH! para mais 136 empresas brasileiras incluídas na “lista suja” acusadas por manterem trabalho escravo.
UUUH! UUUH! para a presidente da Argentina Cristina Kirchner a cada dia mais perdida em seus delírios ditatoriais.

MEU DEUS! MEU DEUS! Há nos EE.UU. 11,5 milhões de imigrantes irregulares.
MEU DEUS! MEU DEUS! 60 índios foram assassinados em 2012.
MEU DEUS! MEU DEUS! Mesinha, caneta e estetoscópio é quanto tem um médico no Interior do Brasil.

“Não há necessidade nenhuma de nos ameaçar; só tens poder sobre o nosso corpo. Se nas batalhas em favor do Imperador recebemos feridas e nos expusemos à morte, muito mais estamos dispostos a defender e morrer por causa do nosso Deus e Salvador”.

Declaração dos 40 Mártires de Sebaste, norte da África, que pertenciam à Legião XII, chamada Fulminante, diante das ameaças do Governador do Império Romano, Licínio


Frei Neylor, irmão menor e pecador
neylor.tonin@terra.com.br
www.freineylor.net