Quarta, 11 de Dezembro de 2019

O Repórter

Frei Neylor Tonin

Neylor J. Tonin é frade franciscano e descendente de italianos. Mestre em Espiritualidade, é formado em Psicologia, Sociologia e Jornalismo. Escritor e conferencista, professor de Oratória Sacra (Homilética), quer ser da vida "um bom pastor, um ardente profeta, um encantado poeta.
Frei Neylor Tonin

De Coração Aberto - Confissões de um cronista

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Frei Neylor Tonin - 06 de outubro de 2013 às 01:50

Tenho 75 anos e, neste domingo, nosso portal O REPÓRTER está publicando minha 75ª colaboração. Confesso que nada é muito e nada me parece pouco. Fazer anos pode não ter importância transcendental para o mundo (os outros), e abrir o coração, em colunas dominicais, pode apenas arrepiar seu escriba. Números são apenas números, quando por detrás deles não existem suor e sangue, hesitações e esforçada boa vontade. Nos 75 anos de vida e de colunas, os espectadores os leitores podem, generosamente, bater palmas ou, desdenhosamente, sacudir os ombros e sussurrar baixinho: “Coitado!” Diante de uma reação ou outra, no entanto, debate-se e espreme-se um pobre caranguejo que as ondas do mar arrastam para o duro rochedo. Vai salvar-se ou espatifar-se? Talvez nem isso seja importante. Mais importante é que o caranguejo existe nas costas de uma onda ou na esperança de não morrer numa concha da pedra. De qualquer forma, agradeço a Deus pela vida, às pessoas pela paciência e amizade e aos meus Chefes e Leitores pela benevolência.

Papa para a nossa esperança


Foto: Osservatore Romano

Aos poucos, o “jesuíta” do Papa vai aparecendo, sem contrapor-se ao “franciscano”. Hay que endurecer e o Papa está endurecendo, sin perder la ternura jamás, e ele não está perdendo. Em suas últimas manifestações “ad intra” da Igreja, o Papa deixou claro não só críticas muito severas, como absolutamente necessárias e esperadas. Foram seus Cardeais eleitores que o orientaram. Para isso ele foi eleito, isto é, para reformar a Cúria Romana, para romper com o “vaticanocentrismo” e fazer a Igreja voltar à sua verdadeira natureza universal. Em outras palavras, não deve o mundo correr para o Vaticano, mas o Vaticano abrir-se para o mundo. A Cúria Romana tem uma geografia e uma natureza auxiliar, enquanto a Igreja tem uma missão. A Cúria deve ser uma instância de serviço, assessorando o Papa, e não um destino de aprovação e sepultamento da missão de toda a Igreja. Há vários papados a Igreja universal pedia mais autonomia e voz para as Conferências dos Bispos dos países. Agora, o Papa está aberto a esta solicitação que é justa e apropriada. Os Sínodos dos Bispos não deverão mais ser uma raridade, mas uma constância. Roma deverá escutar o mundo para que o mundo possa contribuir e obedecer mais fielmente à grande missão da Igreja que é evangelizar. Com palavras duras, disse o Papa Francisco: “Os chefes da Igreja frequentemente são narcisistas, adulados e estimulados de forma negativa por seus cortesãos. A corte é a lepra do papado”. Quanta esperança está semeando o Papa jesuíta Francisco! Que Santo Inácio de Loyola lhe mantenha a disposição para enfrentar os graves problemas que a Igreja tem e que São Francisco lhe seja inspiração de ternura e unidade numa Igreja que esteve, nos últimos 500 anos, dividida entre a Cúria Romana e o resto do mundo católico.

Proselitismo, não!

O ecumenismo (o respeito doutrinário por outros seguimentos religiosos) sempre foi uma pregação positiva dentro da Igreja Católica, a partir, principalmente, do Concílio Vaticano II. Mas era mais uma pregação teórica (desejável) do que prática (concreta). Agora, o Sumo Pontífice fez uma declaração respeitosa e prática em termos ecumênicos. Disse ele: “O proselitismo é uma solene besteira, não tem sentido. É preciso se conhecer, se ouvir e fazer crescer o conhecimento do mundo que nos cerca. Os caminhos que percorrem o mundo podem aproximar ou afastar; mas o importante é que levem ao bem”. E arrematou: “Cada um de nós tem sua própria visão do bem e do mal. Devemos incentivar que cada um siga rumo ao que julga ser o bem”. Olhando para outras Igrejas, principalmente as nanicas, chamadas de pentecostais, vemos que esta visão está longe de ser realidade. Mas isso não deverá tirar da Igreja Católica o seu compromisso de ser ecumênica. Não deve pretender crescer apenas em número, mas na verdade e no serviço. O mundo religioso precisa viver desarmado, pronto apenas para dar a vida, e não para apedrejar os outros.



PLAC! PLAC! para o Papa Francisco que afirmou: “Os Chefes da Igreja são frequentemente narcisistas, adulados e estimulados de forma negativa por seus cortesãos. A corte é a lepra do Papado”.
PLAC! PLAC! para o Papa Francisco para quem “cada um e nós tem sua própria visão do bem e do mal. Devemos incentivar que cada um siga rumo ao que julga ser o bem”.
PLAC! PLAC! para o Papa Francisco que apontou, entre os males mais graves que afligem o mundo, a solidão dos idosos e o desemprego dos jovens.

UUUH! UUUH!
para o nosso mundo em que uma entre oito pessoas passa fome, ou seja, 826,6 milhões de pessoas.
UUUH! UUUH! para o Brasil que ainda tem 13,6 milhões de subnutridos.
UUUH! UUUH! para o Brasil que, entre as 200 melhores universidades do mundo, não tem nenhuma ranqueada.

MEU DEUS! No mundo, 56% dos óbitos já são cremados. No Brasil, 8,2%.
MEU DEUS! No Brasil, 5 mil mulheres são mortas, ao ano, por seus maridos e companheiros, ou seja, 15 por dia e uma a cada hora e meia.
MEU DEUS! A população da terra, em 1961, era de 3 bilhões de pessoas. Hoje, de 6.

Leitores

A leitora Carla Damasceno assim nos escreveu, comentando a publicação resumida da entrevista do Papa Francisco, no domingo passado: “Obrigada pela disposição em compartilhar as principais mensagens do coração do Papa Francisco a todos nós; obrigada pelas lindas fotos também. Deus o abençoe!”



“O que temer? Nada. A quem temer? Ninguém. Por quê? Porque aqueles que se unem a Deus obtém três grandes previlégios: onipotência sem poder; embriaguez sem vinho e vida sem morte”. São Francisco de Assis, 1182-1226, Patrono da Ecologia

Frei Neylor, irmão menor e pecador
neylor.tonin@terra.com.br
www.freineylor.net

De Coração Aberto - Seis horas com o Papa Francisco

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Frei Neylor Tonin - 29 de setembro de 2013 às 11:45
Foto: Agência Ansa

No domingo passado, comentamos a entrevista dada pelo Papa Francisco à revista jesuítica Civiltà Cattolica. Neste domingo, vamos apresentá-la em seus principais tópicos. Imagino que não todos puderam ler as 29 páginas da revista que cobriram mais de seis horas de conversações. A entrevista não tem a força de um documento papal, mas é significativa por seus conteúdos teológicos e, acima de tudo, pastorais. Mais do que como Papa, Francisco expôs sua alma de pastor. A entrevista tem seus limites, colocados pela estreiteza dos assuntos propostos pelo entrevistador. Mesmo assim, seu conteúdo é digno de nota e, creio, dever ser levado ao conhecimento dos que seguem os primeiros passos do Papa ítalo-argentino Jorge Mario Bergoglio.

ANTES DA ELEIÇÃO, revela o em seguida eleito Papa que sentiu uma grande paz, “uma profunda e inexplicável paz e consolação interior, juntamente com uma escuridão total e uma obscuridade profunda”. “Estes sentimentos me acompanharam até à eleição”. O entrevistador revela que “falar com o Papa Francisco é, realmente, uma espécie de fluxo vulcânico de ideias que se atam entre si”.


Foto: Getty Images

DEFINIÇÃO:
Perguntado quem era Jorge Mario Bergoglio, respondeu após um momento de hesitação: “Não sei qual possa ser a resposta mais correta. Eu sou um pecador. Esta é a melhor definição. E não é um modo de dizer, um gênero literário. Sou um pecador. Sou um pecador para quem o Senhor olhou. Sou alguém que é olhado pelo Senhor”.

COMUNIDADE
: Afirma que se tornou jesuíta para poder viver em comunidade. “Para mim, uma coisa é verdadeiramente fundamental, a comunidade. Preciso viver a minha vida junto com os outros”.

JESUÍTA: Confessa que sempre se impressionou com a frase de Santo Inácio: “Não estar constrangido pelo máximo e, no entanto, estar imediatamente contido no mínimo: isso é divino”. E emendou: “É fazer as coisas pequenas de cada dia com coração grande e aberto a Deus e aos outros. É valorizar as coisas pequenas no interior dos grandes horizontes, os do Reino de Deus”.


Foto: Getty Images

DISCERNIMENTO: Segundo ele, esta é uma das virtudes apregoadas por Santo Inácio. “O discernimento se realiza sempre na presença do Senhor, vendo os sinais, auscultando as coisas que acontecem, o sentir das pessoas, especialmente os pobres. As minhas escolhas, mesmo aquelas ligada à vida cotidiana, como usar um automóvel modesto, estão ligadas a um discernimento espiritual que responde a uma exigência que nasce das coisas, das pessoas, da leitura dos sinais dos tempos. O discernimento no Senhor guia-me no meu modo de governar”.

DEFEITOS: Lembrando-se de seu governo como Superior dos jesuítas, aos 36 anos, confessou: “O meu governo, no início, tinha muitos defeitos. Era preciso enfrentar situações difíceis e eu tomava as decisões de modo brusco e individualista. O meu modo autoritário e rápido de tomar decisões levou-me a ter sérios problemas e a ser acusado de ser ultraconservador, mas nunca fui da direita. Foi o meu modo autoritário de tomar decisões que criou problemas”. “Com o tempo, aprendi muitas coisas. O Senhor permitiu esta pedagogia de governo, mesmo através dos meus defeitos e dos meus pecados”.


Foto: Marcello Dias / Agência O Repórter

IGREJA 1: “A imagem da Igreja de que gosto é a do povo santo e fiel a Deus. É a definição que eu uso mais vezes. A pertença a um povo tem um forte valor teológico: Deus na história da salvação salvou um povo. Não existe plena identidade sem pertença a um povo. Ninguém se salva sozinho, como indivíduo isolado, mas Deus atrai-nos considerando a complexa trama das relações interpessoais que se realizam na comunidade humana. Deus entra na dinâmica do povo”.

IGREJA 2: “A Igreja com a qual devemos ‘sentir’ é a casa de todos, não uma pequena capela que só pode conter um grupinho de pessoas selecionadas. Não devemos reduzir o seio da Igreja universal a um ninho protetor da nossa mediocridade. É a Igreja-Mãe. E a Igreja é fecunda, deve sê-lo”.

IGREJA 3: “Vejo com clareza que aquilo que a Igreja mais precisa, hoje, é a capacidade de curar as feridas e de aquecer o coração dos fiéis. Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma batalha. É inútil perguntar a um ferido se tem colesterol ou açúcar altos. Devem curar-se as suas feridas. Depois podemos falar de tudo o resto. Curar as feridas! Curar as feridas!” “A Igreja, por vezes, encerrou-se em pequenas coisas, em pequenos preceitos. O mais importante é o primeiro anúncio: Jesus Cristo salvou-te”.


Foto: Osservatore Romano

MINISTROS: “Os ministros da Igreja devem ser misericordiosos, tomar a seu cargo as pessoas, acompanhando-as como o bom samaritano que lava, limpa, levanta o seu próximo. Isso é o Evangelho puro. Deus é maior que o pecado. As reformas organizativas e estruturas são secundárias, isto é, vêm depois. A primeira reforma que deve ser feita é a da atitude. Os ministros do Evangelho devem ser capazes de aquecer o coação das pessoas, de caminhar na noite com elas, de saber dialogar e mesmo de descer às suas noites na sua escuridão, sem perder-se. O povo de Deus quer pastores e não funcionários ou clérigos de Estado. Os Bispos, em particular, devem ser capazes de suportar com paciência os passos de Deus no seu povo, de tal modo que ninguém fique para trás. Em vez de ser apenas uma Igreja que acolhe e recebe, tendo as portas abertas, procuramos mesmo ser uma Igreja que encontra novos caminhos, que é capaz de sair de si mesma e ir ao encontro de quem não a frequenta, de quem a abandonou ou lhe é indiferente. É necessário audácia e coragem”.

ANUNCIO ESSENCIAL: “Não podemos insistir somente sobre questões ligadas ao aborto, ao casamento homossexual e uso de métodos contraceptivos. Isso não é possível. Uma pastoral missionária não está obcecada pela transmissão desarticulada de uma multiplicidade de doutrinas a impor insistentemente. O anúncio de caráter missionário concentra-se no essencial, no necessário, que é também aquilo que mais apaixona e atrai, aquilo que faz arder o coração”. “O anúncio do amor salvífico de Deus precede a obrigação moral e religiosa”.

MULHER:
“É necessário ampliar os espaços de uma presença feminina mais incisiva na Igreja. Temo a solução do ‘machismo de saias’. As mulheres têm vindo a colocar perguntas profundas que devem ser tratadas. A Igreja não pode ser ela mesma sem a mulher e o seu papel. A mulher, para a Igreja, é indispensável. Maria, uma mulher, é mais importante que os Bispos. Digo isso porque não se deve confundir a função com a dignidade”.

VATICANO II: “O Vaticano II foi uma releitura do Evangelho à luz da cultura contemporânea. Produziu um movimento de renovação que vem simplesmente do evangelho. Os frutos são enormes. Uma coisa é clara: a dinâmica de leitura do Evangelho no hoje, que é própria do Concílio, é absolutamente irreversível”.


Foto: Marcello Dias / Agência O Repórter

PESSOA HUMANA: “Tenho uma certeza dogmática: Deus está na vida de cada pessoa. Deus está na vida de cada um. Mesmo se a vida de uma pessoa foi um desastre, se se encontra destruída pelos vícios, pelas drogas ou por qualquer outra coisa, Deus está na sua vida. Pode-se e deve-se procurar na vida humana. Mesmo se a vida de uma pessoa é um terreno cheio de espinhos e ervas daninhas, há sempre um espaço onde a semente boa pode crescer. É preciso confiar em Deus”.

DOMESTICAÇÃO DA FÉ: O Papa não quer “domesticar as fronteiras”. Diz: “A nossa fé não é uma fé-laboratório, mas uma fé-caminho, uma fé histórica. Deus revelou-se como História, não como compêndio de verdades abstratas. Tenho medo dos laboratórios, porque no laboratório pegam-se nos problemas e levam-se para a própria casa para domesticá-los, para os envernizar, fora do seu contexto. Não é preciso levar as fronteiras para casa, mas viver na fronteira e ser audazes. Domesticar a fronteira significa falar de uma posição distante, fechar-se nos laboratórios. São coisas úteis, mas a reflexão para nós deve ser sempre partir da experiência”.

SANTIDADE: “Vejo a santidade no povo de Deus paciente: uma mulher que cria os filhos, um homem que trabalha para levar o pão para casa, os doentes, os sacerdotes idosos com tantas feridas, mas com um sorriso por terem servido o Senhor, as Irmãs que trabalham tanto e vivem uma santidade escondida. Esta é para mim a santidade comum”.


Foto: Osservatore Romano

ORAÇÃO: Perguntado como e quando reza, o Papa revelou: “Rezo o Ofício Divino (oração do Breviário rezado por monges e padres) todas as manhãs. Gosto de rezar os Salmos. Depois, a seguir, celebro a Missa. Rezo o Rosário. O que verdadeiramente prefiro é a adoração vespertina, mesmo quando me distraio e penso em outra coisa ou mesmo quando adormeço rezando. Assim, à tarde, entre as sete e as oito, estou diante do Santíssimo durante uma hora, em adoração. Mas também rezo mentalmente quando espero no dentista ou noutros momentos do dia”.

QUERIDOS LEITORES: Não foi fácil resumir 29 páginas em apenas três de computador. Espero ter sido fiel aos principais conteúdos da entrevista concedida, conteúdos que possam interessar-lhes. Em minha opinião, o Papa foi muito corajoso, falou de coração aberto, há de receber muitas críticas, mas também merecerá muitos elogios. Ele baixou a guarda, se fez vulnerável, não falou, essencialmente, como teólogo, mas como pastor. Este é o nosso Papa, o PAPA FRANCISCO, ao qual tributamos obediência e por quem rezamos para que Deus o conserve para Sua glória e para o bem da nossa querida Igreja.

Frei Neylor, irmão menor e pecador
neylor.tonin@terra.com.br
www.freineylor.net