Quinta, 19 de Setembro de 2019

O Repórter

Frei Neylor Tonin

Neylor J. Tonin é frade franciscano e descendente de italianos. Mestre em Espiritualidade, é formado em Psicologia, Sociologia e Jornalismo. Escritor e conferencista, professor de Oratória Sacra (Homilética), quer ser da vida "um bom pastor, um ardente profeta, um encantado poeta.
Frei Neylor Tonin

De Coração Aberto - Entrevista com o Papa Francisco

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Frei Neylor Tonin - 22 de setembro de 2013 às 15:55
Marcello Dias / Agência O Repórter

O mais nefasto adversário duma religião não é o ateu ou o não-crente, mas o fanático empedernido e intolerante. Um conhecido intelectual paulista e “defensor” da Igreja Católica referiu-se à entrevista do Papa Francisco, à revista italiana Civiltà Cattolica, como inútil, equivocada e maléfica. A entrevista ocupou 29 páginas da revista, na qual o Papa não fugiu a temas polêmicos, mas traçou as prioridades de sua ação pastoral e revelou pormenores sobre sua vida pessoal. Perguntado sobre quem era Jorge Mario Bergoglio, não hesitou: “Sou um pecador. Essa é a definição mais exata, não é uma figura de linguagem”. Na contraluz desta aceitação, surgem as figuras dos fariseus do tempo de Jesus, que se achavam justos, e dos fanáticos de todos os tempos, mais prontos em jogar pedras nos pecadores sinceros do que em se reconhecerem faltosos e pecadores. O fanático não é fraco, é duro e condenatório. Não é um arauto da Boa Nova, é um soberbo incriminador sem misericórdia. O Papa se apresenta, na entrevista, como a antítese desta postura. Prega a misericórdia e pensa numa Igreja de portas abertas para todas as ovelhas e homens de boa vontade, amados por Deus.
 
A revista Civiltà Cattolica não é um órgão oficial da Igreja de Roma. Fundada em 1850, pelos Jesuítas, em Nápoles, é por eles editada, ininterruptamente, até hoje. A entrevista do Papa saiu em seu número 3918. A revista tem como ideal “promover a civilização católica” e foi criada para enfrentar, em sua origem, os liberais e os maçons. Recebe o aval da Santa Sé, sendo vista por isso com extrema reverência dentro do universo católico. Os artigos são assinados sob a aprovação de um Conselho Editor.
 
Os fanáticos, por sua formação psíquica intolerante, gostam de temas polêmicos, não para aprenderem mais e se deixarem iluminar e alimentar, mas para poderem atiçar suas condenações apodíticas e apressadas. A entrevista com o Papa Francisco não foi de origem doutrinária, mas pastoral. Suas posições doutrinárias são bem conhecidas, desde quando era Cardeal de Buenos Aires e enfrentou a “troupe” Kirchner. Se pudéssemos dar a tônica da entrevista, nas próprias palavras do Papa, estamparíamos o que ele disse: “Os ministros da Igreja devem ter como primeira missão levar uma palavra de misericórdia, a mensagem de salvação de Jesus Cristo. A proclamação do amor redentor de Deus vem antes de imperativos morais e religiosos”.
 
Na lucidez pastoral desta sua assertiva, emendou, referindo-se a temas polêmicos: “Sabemos qual a posição da Igreja e eu sou filho da Igreja, mas não é preciso continuarmos a falar disso assim”. “Não é necessário para os católicos focalizarem-se em assuntos que dividem: gays, abortos, casamento de homossexuais”. Em outras palavras, o Papa não deseja uma Igreja obcecada, “dos que procuram soluções disciplinares que dão excessiva importância em resguardar a doutrina e estão obcecados em trazer de volta um passado que já vai longe e é estático e repressivo”. Judiciosamente afirmou o teólogo Francisco Borba, diretor do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP: “Ele quis dizer: é mais importante o gay amar a Deus do que a Igreja condenar sua opção sexual”. Para Edson Luiz Samuel, doutor em Direito Canônico, o Papa repete e reafirma a antiga distinção entre erro e errante: “O erro é combatido, mas o errante é acolhido. A Igreja nunca vai mudar em relação ao aborto e ao casamento gay. Mas pode, e Francisco claramente quer isso, aproximar-se do ser humano”.
 
Para encerrar, deixemos o Papa falar: “Não podemos reduzir o seio da Igreja a um ninho protetor para a nossa mediocridade. Temos que encontrar um novo equilíbrio, ou o edifício moral da Igreja vai cair como um castelo de cartas, perdendo o frescor e o perfume do Evangelho”. Isso, senhor intelectual, é um lúcido posicionamento pastoral. As suas raivas amedrontadas apenas denotam, talvez, ranços farisaicos “estáticos e repressivos”.
 

 
PLAC! PLAC! para o Papa Francisco que garantiu: “A proclamação do amor de Deus vem antes de imperativos morais e religiosos”.
PLAC! PLAC! para o Papa Francisco que afirmou: “Não podemos reduzir o seio da Igreja a um ninho protetor da nossa mediocidade”.
PLAC! PLAC! para o Papa Francisco que vê a Igreja “com capacidade de curar e de dar calor aos corações dos fiéis”. Ela é como um hospital após uma batalha. “As pessoas devem ser atendidas”.
 
UUUH! UUUH! para os espancamentos de crianças (68%) por pais e mães em favelas da cidade do Rio.
UUUH! UUUH! para a Síria que bombardeia hospitais como tática de guerra, segundo Relatório da ONU.
UUUH! UUUH! para o desbragado rei da Suazilândia, Mswati III, 45 anos, que está casado com 14 mulheres.
 
MEU DEUS! Espionar outros países não é crime. Crime é divulgar o nome de quem está espionando.
MEU DEUS! O físico inglês Stephen Hawking, 71, vivo até hoje, após diagnosticado, em 1963, que só teria mais 3 anos de vida, defendeu o direito ao suicídio de doentes em estado terminal.
MEU DEUS! Haveria, no Brasil, 1 milhão de consumidores de drogas ilícitas.
 
Leitores

A leitora e professora Inês Ferreira vibrou com a perspectiva aberta para a reabilitação dos teólogos expurgados em papados anteriores. Isso aconteceria, diz ela, para o bem da Igreja e dos pobres e em honra ao Deus Libertador. “Resgatemos, finaliza, os rumos de uma “Terra Sem Males”.
 

 
“Todas as nossas palavras serão inúteis se não brotarem do fundo do coração. As palavras que não dão luz aumentam a escuridão”.

“Não ame por beleza, pois um dia ela acaba. Não ame por admiração, pois um dia você pode decepcionar-se. Ame apenas, pois o tempo nunca poderá apagar um amor sem explicação”.

Madre e Santa Teresa de Calcutá, 1910-1997
Missionária albanesa e fundadora de uma Congregação Religiosa

De Coração Aberto - Apelo ao Papa Francisco

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Frei Neylor Tonin - 15 de setembro de 2013 às 13:50
reprodução

De 5 a 8 de setembro, realizou-se em Madrid, patrocinado pela Asociación de Teólogos Juan XXIII, um Congresso que reuniu centenas de Teólogos do mundo todo. Ao final do Congresso, os participantes publicaram um apelo dirigido ao Papa Francisco, no qual afirmam, em primeiro lugar, seu repúdio a vários tipos de anormalidades atuais. Dizem:

DENUNCIAMOS a falta de ética nas políticas governamentais;

DENUNCIAMOS o uso da violência, o militarismo, o armamentismo e as guerras irracionais e destrutivas;

DENUNCIAMOS o racismo e a xenofobia, que atinge principalmente os imigrantes de países pobres;

DENUNCIAMOS a negação dos direitos sexuais e reprodutivos e a sistemática violência contra as mulheres.

E pedem que o Papa Francisco, por uma questão de justiça, reabilite os teólogos condenados durante os papados de João Paulo II e de Bento XVI. Afirmam que são centenas, (fala-se em cerca de 500), entre os quais se destacam o suíço HANS KÜNG, o belga JACQUES DUPUIS, o francês JACQUES POHIER, o brasileiro LEONARDO BOFF, e vários espanhóis, nominalmente: MARCIANO VIDAL (aluno do mais conhecido teólogo moralista do século XX, Bernhard Häring), JUAN JOSÉ TAMAYO, BENJAMÍN FORCANO, JOSÉ ARREGUI, JON SOBRINO, JOSÉ MARÍA CASTILLO e JUAN ANTONIO ESTRADA.

Confessam na petição: “A Teologia da Libertação é teologia da vida, que defende, com especial intensidade, a vida mais ameaçada, a dos empobrecidos, que morrem, antes do tempo, de fome. E finalizam o documento com a frase: “Afirmamos, com Dom Pedro Casaldáliga (Bispo espanhol em São Félix do Araguaia), que tudo é relativo, inclusive a Teologia. Absolutos, somente Deus, a fome e a libertação”.

Na ocasião, também assinaria a petição. Posso imaginar o que perdeu nossa querida Igreja com este contingente de pessoas bem formadas, inteligências brilhantes e devotados ao serviço aos mais pobres. Ressalto que cerca de 20 mil sacerdotes deixaram o ministério, nas últimas décadas, abrindo o flanco da Igreja para aventureiros pentecostais. Só, em Brasília, haveria cerca de 2 mil ex-padres. Bem que o Papa Francisco poderia resgatar estes padres e teólogos, num gesto de grandeza e por amor à justiça.

Texto forte

São João Crisóstomo (354-407) nasceu na Síria (Antioquia), terra atualmente conflagrada. Foi um grande orador, merecendo por isso a alcunha de Crisóstomo, “boca de ouro”.  Foi nomeado pelo Imperador Arcádio para o cargo de Patriarca de Constantinopla. A capital do Império Oriental era uma cidade de luxo, devassidão e intrigas políticas. Membros da Igreja eram ambiciosos, politiqueiros, maus pastores. Em seus sermões, ele execrava o mundanismo e a decadência da vida moral. A Imperatriz Eudóxia o expulsou da cidade. Voltou por insistência do povo, mas foi novamente exilado. Ao morrer no exílio aos 59 anos, confessou como suas últimas palavras: “Glória seja dada a Deus em tudo”. Sua festa ocorre no dia 13 de setembro. É dele a incandescência da reflexão a seguir.

“Que proveito haveria, se a mesa de Cristo está coberta de taças de ouro e ele próprio morre de fome? Sacia primeiro o faminto e, depois, do que sobrar, adorna sua mesa. Fazes um cálice de ouro e não dás um copo de água? Que necessidade há de cobrir a mesa com véus tecidos de ouro, se não lhe concederes nem mesmo a coberta necessária? Que lucro haverá? Dize-me: se vês alguém que precisa de alimento e, deixando-o lá, vais rodear a mesa de ouro, será que te agradecerá ou, o contrário, se indignará? Que acontecerá se ao vê-lo coberto de andrajos e morto de frio, deixando de dar as vestes, mandas levantar colunas douradas, declarando fazê-lo em sua honra? Não se julgaria isto objeto de zombaria e extrema afronta? Pensa também isto a respeito de Cristo, quando errante e peregrino vagueia sem teto. Não o recebes como hóspede, mas ornas o pavimento, as paredes e os capitéis com colunas, prendes com cadeias de pratas as lâmpadas, e a ele, preso com grilhões no cárcere, nem sequer te atreves a vê-lo. Torno a dizer que não proíbo tais adornos, mas que com eles haja também o cuidado pelos outros. Ou melhor, exorto a que se faça isto em primeiro lugar. Daquilo, se alguém não o faz, jamais é acusado; isto porém, se alguém o negligencia, provoca-lhe a geena (inferno) e fogo inextinguível, suplício com os demônios. Por conseguinte, enquanto adornas a casa, não desprezes o irmão aflito, pois ele é mais precioso que o templo”.




PLAC! PLAC! para o Papa Francisco que disse: “A verdade não ameaça a liberdade”.
PLAC! PLAC! para o Papa Francisco que já está “se mexendo” e promovendo a reforma da Cúria vaticana.
PLAC! PLAC! para a 16ª. Bienal do Livro da cidade do Rio, que teve o comparecimento de 660 mil visitantes que deixaram nos cofres das Editoras R$ 71 milhões.

UUUH! UUUH! para os agressores covardes (maridos e companheiros) que espancam, a cada hora, sete mulheres na cidade do Rio.
UUUH! UUUH! para a Presidente Dilma, sofrível em comunicação, sempre ansiosa quando fala e mesmo quando lê pronunciamentos à nação.
UUUH! UUUH! para as manifestações violentas dos Black Blocs no Dia da Independência.

MEU DEUS! Em ocorrências de violência, os Estados de Alagoas e Espírito Santo ocupam o primeiro e segundo lugares.
MEU DEUS! 18 milhôes de crianças morrem de fome, a cada ano, no mundo.
MEU DEUS! No Brasil, há 13 milhões de subalimentados graves permanentes.



“A esperança tem asas. Faz a alma voar. Canta a melodia mesmo sem saber a letra. E nunca desiste. Nunca”. Emily Dickinson, 1830-1886. Escritora e poeta norte-americana.

Frei Neylor, irmão menor e pecador
neylor.tonin@terra.com.br
www.freineylor.net