Quarta, 19 de Janeiro de 2022

O Repórter

Frei Neylor Tonin

Neylor J. Tonin é frade franciscano e descendente de italianos. Mestre em Espiritualidade, é formado em Psicologia, Sociologia e Jornalismo. Escritor e conferencista, professor de Oratória Sacra (Homilética), quer ser da vida "um bom pastor, um ardente profeta, um encantado poeta.
Frei Neylor Tonin

De Coração Aberto - Jardineiros da esperança

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Frei Neylor Tonin - 18 de agosto de 2013 às 14:39
Marcello Dias / Agência O Repórter

Escrevo pensando nos jovens que, há pouco, encheram as ruas do Rio de Janeiro. Em mais de uma oportunidade, o Papa Francisco lhes pediu que não deixassem apagar a chama da esperança. O velho mestre Tristão de Athayde disse, ao completar 80 anos, que haveria duas coisas a lamentar: um jovem sem esperança (fogo) e um velho sem ética. Dizia também, dirigindo-se aos jovens, entre os quais me incluía: “Coloquem fogo na vida! Mas permitam que nós adultos coloquemos um pouco de água onde vocês, jovens, colocarem fogo demais”. Nossa Igreja e sociedades estão, em parte, morrendo de frio, muito porque os jovens já não são o fogo que deveriam ser, porque deixarem de ser os jardineiros da esperança..

Esperança, dom e graça

Como espaço da esperança, o ser humano é um agraciado. O ser humano foi criado cheio de esperanças. Nosso ser vive de esperanças e, sem elas, não teríamos o dia de amanhã. Viver sem esperanças seria deixar de ser um jardim florido de sonhos para tornar-se um deserto desesperador e inabitável. Em termos existenciais, a esperança é mais importante do que a fé e a caridade, pois quem não espera não consegue nem crer nem amar.

Fé e esperança

 “A esperança não engana, diz São Paulo, pois o amor de Deus se derramou em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado” (Rm 5,5). Podemos, por isso, “esperar contra toda esperança” (4,18), mesmo não entendendo as linhas tortas da história e não tendo respostas para os porquês de nossas dúvidas humanas. Enquanto a fé diz “sim”, o cristão é “alegre na esperança, paciente no sofrimento e perseverante na oração” (Rm 12,12).

Apanágio humano

Precisamos urgentemente tornar-nos jardineiros da esperança, sem medo, sem desconfianças, sem condenações. Nosso apanágio humano e cristão é a esperança. Por um lado, damo-nos conta da existência do joio no campo da vida, mas, por outro, não podemos cair no desespero, na ansiedade e na impaciência. Convivendo bem com o Mal, renunciamos à vitória apressada do Bem. Dessa forma, com esperança, queremos ser da vida, de todas as vidas, dia após dia, bons pastores, ardentes profetas e encantados poetas.

Céu e inferno

O escritor existencialista francês, Jean-Paul Sartre, asseverou que “o inferno são os outros”. Na esperança, eles são companheiros e agentes do céu. Neles e com eles nos perdemos e morremos para nos encontrar e viver. Eles são a pedra de toque do amor verdadeiro a Deus e, em sua escola, aprendemos que não dá para amar sem renunciar. Amar é renunciar: esta é a lição da vida de Jesus. Cristo, para fazer a vontade do Pai, fez-se “obediente até à morte e morte na cruz”. Assumiu o rosto mais disforme da vida, para resgatar as profundidades mais abjetas da existência. Seu endereço foram a casa dos “pobres, doentes e pecadores”. São eles os nossos outros, o nosso céu e/ou o nosso inferno. Neles é que resplandece e se testa a esperança. Sem eles, poderíamos construir um céu, que não seria, no entanto, o céu de Deus. “Viver na esperança, ensinou o grande teólogo alemão J. Moltmann, quer dizer capacitar-nos para amar a vida não-amada, renegada”.

Cristo, nossa esperança


Cristo é a nossa Fé, o nosso Amor e a nossa Esperança. Sua história foi, aparente e materialmente, um rotundo fracasso. Fez o bem e foi condenado como malfeitor. Esquivava-se das autoridades e as execrava, defendendo o povo, servindo-o, curando-o, alimentando-o, e foi condenado pelos poderosos e apupado pelo povo que referendou a Barrabás. Pregou o Reino dos Céus e experimentou, no fracasso da cruz, o descrédito de suas promessas. Tratava a Deus como Pai e sentiu-se abandonado por Ele, apesar de seus gritos, suor e sangue. Até hoje, conservamos na memória o drama de sua cruz. A cruz está no alto de nossas igrejas. No mistério trágico de amor da Cruz, Ele se fez a nossa esperança de salvação. Não dá para viver sem Ele, sem a glória das glórias que é a Cruz.. Sem Ele, nosso destino é o cemitério. É nele que repousa o futuro da vida, a vitória do Bem, a bem-aventurança da paz e esperamos o abraço de Deus.

Palavras de uma mestra

Eis o conselho de Gabriela Mistral, poeta chilena e Nobel de Literatura, aos jovens de seu país: “Não deixem arrefecer suas esperanças; sigam a inspiração de seus audazes sonhos. A semente da esperança foi lançada no fundo do seu coração: façam-na crescer com paciência e alegria. Deixem-na amadurecer e frutificar, pois só colhe quem é perseverante. O impaciente, o frustrado, acaba por desanimar. Deus está em suas vidas, na sua escuridão e na sua luz, nos cumes de suas majestosas montanhas, nos altiplanos e vales de sua terra. Confiem nele; contem sempre com Ele. Ele os tornará fortes, dar-lhes-á asas de aves migratórias e, talvez, a potência do condor. A autêntica grandeza não é complicada, é simples. Não tenham medo de voltar o coração e os olhos para o impossível: pois só assim o possível se torna realidade”.

Disse-me, certa feita, um velho e vivido senhor colombiano: “Não deixe de pregar sempre e de escrever sobre a esperança. Precisamos de homens que sejam jardineiros da esperança. Sem ela, a vida perderia sua graça, aliás, sem ela nos sobraria apenas o mais trágico desespero”. Que estas linhas sejam em obediência a ele.

Leitores

Maria Letícia Rick, Glória Souza, Inês Ferreira, Josemary Lobato Esteves escrevem ecoando minhas últimas contribuições dominicais como “lúcidas, lindas e maravilhosas”. Escrevo pensando em vocês e nos Leitores que, eventualmente, me dão o favor de sua leitura. Ninguém vive só para si. Muito menos, um escritor pobre e pecador.

Frei Neylor, irmão menor e pecador
neylor.tonin@terra.com.br
www.freineylor.net


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Comentários (1)
  • Inês Ferreira (Rio de Janeiro)

    Lindo demais, frei Neylor!!!!! Ao ler sua coluna de hoje, lembrei-me muito de um santo e terno homem, dom Hélder Câmara, que certa vez disse “ Esperança é crer na aventura do amor, jogar nos homens, pular no escuro, confiando em Deus.” Hoje é o dia das vocações religiosas e mando meus parabéns a você. Que Deus te abençoe, frei Neylor, e te encha sempre com a doce esperança divina.

    18/08/2013 11:54 Carregando...
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